“É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente”
(Simone de Beauvoir)”
Tive o prazer de ver o monólogo “Viver Sem Tempos Mortos“, baseado nas memórias de Simone de Beauvoir, com Fernanda Montenegro, na segunda fileira. Era um grande sonho meu poder ver a dama do teatro brasileiro nos palcos.
Trajando uma calça preta e um camisa branca, Fernanda acomodou-se em uma singela cadeira de madeira colocada no centro de um tablado sobre o palco. Seu corpo na penumbra, deixado ver-se de relance por um tÃmido feixe de luz, sem elementos cênicos e os artifÃcios corporais, o que valeu mesmo ali foi apenas o rosto e a voz de Fernanda.
Pelos próximos sessenta minutos, acompanhamos a vida de Simone de Beauvoir e de seu grande ato de amor vivido com Jean-Paul Sartre. Uma vida que habitou o controverso século 20 e fez da liberdade a única condição para sua existência.
Ao final da peça, eu poderia apaludi-la a noite inteira. Fiquei muito tentada a pedir uma foto, mas fiquei tÃmida.
É impressionante como aos 82 anos, Fernanda Montenegro é classuda, maravilhosa!
O monólogo, escrito por ela mesma, é baseado na vida da francesa Simone de Beauvoir, filósofa e ensaÃsta, mulher de Jean-Paul Sartre, defensora do feminismo.
Quando comprei os ingressos logo pensei qual seria o motivo do tÃtulo da peça, mas logo fiquei sabendo que ”Viver Sem Tempos Mortos” foi uma frase de ordem, repetida em maio de 68.
O dicionário autoriza o uso da palavra, mas a atriz defende que não é um “espetáculo”, não no sentido comumente usado. “De espetáculo não tem nada. Não tem penduricalhos, parangolés. Ele é essencial, muito dentro do que eu esperava”, disse, em entrevista na capital paulista, onde se apresentou com a peça por um curto perÃodo em 2009.
A ideia surgiu numa conversa com o amigo Sérgio Britto, quando os dos ficaram interessados em adaptar “Tête-à -Tête”, história da relação de Sartre e Beauvoir. A parceria não evoluiu e Montenegro decidiu levar o projeto adiante por conta própria. A partir das correspondêncidas e da autobiografia de Simone, escreveu um resumo de 200 páginas, depois diminuÃdo para 30. “É apenas um cheiro, um nada em relação à vida dessa mulher – só de autobiografia são seis volumes.”
A atriz tinha, então, um texto estritamente literário, mas não sabia se “dava samba” em cena. Depois de uma conversa com o diretor Felipe Hirsch, não só ficou tranquila como encontrou uma “simbiose maravilhosa”. “Hirsch é um minimalista, um dos poucos diretores brasileiros que fogem do barroquismo. Muito criativo, mas sem ser histriônico.”
Isso levou a um teatro sem dramaturgia, trilha sonora ou atores coadjuvantes. No palco, apenas Fernanda com um figurino sóbrio, uma cadeira e um facho de luz. “Entro, sento na cadeira e falo como se fosse a memória de Simone sendo contada.”
Para a atriz, um monólogo é sempre um desafio do tipo “viver ou morrer”, mas que, na sua opinião, acabou se tornando o retrato de um perÃodo de recursos parcos para a produção teatral, mais do que um opção meramente estética.
“Estamos vivendo a era do monólogo. Teatro é caro. Não é algo que se compra na prateleira ou na calçada. Hoje está acontecendo uma pulverização do orçamento, se distribuindo mais para aqueles que nunca tiveram. Não dá mais para fazer espetáculos como fazÃamos antigamente. Hoje em dia ter dois ou três atores em cena já é muita gente.”
Liberdade e verdade
Fernanda Montenegro tomou contato com a obra de Simone de Beauvoir pela primeira vez aos 19 anos, ao ler “O Segundo Sexo”, divisor de águas do pensamento feminista. “Mudou o mundo. Antes disso, o homem era considerado o centro, o absoluto, e a mulher, o outro. Um ser superior e outro que está ao lado para pegar o que resta da mesa.”
“Sem Sartre e Simone, não haveria 68 em Paris. Eram provocadores, contribuÃram para a mudança libertária que hoje vemos no mundo. Tinham dois princÃpios: liberdade e verdade“, acrescentou.
Mais do que colocar a plateia para refletir sobre suas certezas, a ideia da atriz de mergulhar na obra de Beauvoir também estava relacionada a um desejo de refletir sobre sua própria vida. “Já estou com a idade que estou, há 65 anos vivendo publicamente. Passei por muitos textos, mudança de vida, cidade, filhos, netos, perdi pai, irmã, famÃlia. Experiências duras. Simone tem sempre algo que faz você refletir. E pessoas de idade gostam de contar sobre sua vida, para relembrá-la.”
Idade que não parece pesar. Ao ser perguntada sobre a reestreia de “Viver Sem Tempos Mortos”, Montenegro tem humildade para assumir e dizer: “sinto que melhorei”.
“Viver Sem Tempos Mortos” em São Paulo
Até 11 de dezembro 2011
Teatro Raul Cortez, Fecomércio
Quinta a Sextas, às 21h30; sábados, às 21h; domingos, às 18h
R$ 80,00 a R$ 100,00
Informações: (11) 3254-1700
bisou bisou,
Viviane
Fonte:http://ultimosegundo.ig.com.br